segunda-feira, 25 de março de 2013

O PERSONAGEM DE FICÇÃO - Características psicológicas e sociais


Todas as características citadas na postagem anterior (Características Físicas) influenciarão na parte psicológica do personagem. Por exemplo, uma pessoa que fala muito rápido, revela uma certa ansiedade em sua personalidade. Um personagem que fala muito lentamente, pode indicar um certo marasmo, ou mesmo desleixo, em suas ações. Dom Vito Corleone (O Poderoso Chefão) é um personagem que sempre se dirige aos seus interlocutores com uma certa calma na voz. Isso não revela displicência, e sim é um indício de que o personagem jamais perde a calma diante das situações conflitantes que enfrenta. Para um homem na posição dele, mostrar “quem” está no comando é de extrema importância. Quanto mais complexa e emblemática for a figura, mais interessante e rica ela será.
Algumas perguntas para ajudá-lo a montar o perfil psicológico do seu personagem:
·   Quais são as principais características do seu personagem? (inteligente, honesto, trabalhador, bom caráter, determinado, decidido, calmo etc. e seus opostos)
·         Qual o objetivo do seu personagem?
·         O que ele fará para alcançar seu objetivo?
·         Possui algum hábito ou vício? Qual? Por quê?
·         Gosta de quê?
·         Não gosta de quê?
·         Como foi/é sua educação?
·         Que importância ele dá para a família?
·         Mora sozinho?
·         Como é o lugar onde ele vive?
·         Tem esposa/marido e filhos?
·         O que faz para viver?
·         Gosta do que faz? Por quê?
·         Qual é a sua condição social?
·         Característica que pode perdê-lo ou salvá-lo.
·         O que ele faz nos momentos de lazer?
·         O que sabemos sobre o seu passado?
·         Tem amigos ou é um ser anti-social?
·         Ele se comporta em casa da mesma forma que em público?
·         Tem algum complexo de inferioridade ou de superioridade?
Dependendo da importância do personagem na história e do próprio tamanho da história, não é necessário preencher todos esses itens. No entanto, quanto mais você souber sobre o seu personagem, mais condições você terá de colocá-lo em situações verossímeis e de criar diálogos convincentes e naturais. Para um curta-metragem você pode deixar muitas dessas questões sem resposta, uma vez que não é possível desenvolver muito bem o perfil do personagem em uma história curta. Contudo, se você estiver escrevendo um longa-metragem, é sumamente importante que você crie um perfil completo dos seus personagens principais, respondendo a essas e a outras questões que julgar necessárias. Só assim seu roteiro terá organicidade e seus personagens terão vida própria. 

segunda-feira, 11 de março de 2013

O PERSONAGEM DE FICÇÃO - Características Físicas


Continuando com o tema "Personagem de Ficção", nesta nova postagem falarei um pouco sobre as características físicas de um personagem de ficação. A maioria dos roteiristas de primeira viagem começam a escrever sem saber direito sobre "quem" estão escrevendo. É por isso que há muitos personagens inverossímeis, sem nenhuma profundidade. Consequentemente, a história como um todo perde força. Então, não seja preguiçoso. Antes de começar a escrever, crie um perfil completo dos seus personagens. Assim, eles parecerão realmente ter vida própria enquanto você avança com a sua história.

Seu personagem é gordo ou magro? Alto ou baixo? Possui alguma cicatriz? É calvo? Tem cabelos desgrenhados ou sempre bem penteados? Tem algum tique nervoso? Usa óculos? Essas são algumas perguntas que você terá que responder enquanto cria seu personagem. E cada uma dessas respostas precisa de uma justificativa. De um “porquê”. Assim, uma mulher muito magra terá uma preocupação excessiva com o peso e com a alimentação. Um homem muito gordo terá como uma de suas características o gosto pela boa comida. E assim sucessivamente.

Abaixo, uma lista de características que o ajudarão a compor a parte física dos seus personagens:

·         Nome completo e apelido (se houver)

·         Idade

·         Altura

·         Peso

·         Cor dos olhos

·         Cor do cabelo

·         Cor da pele

·         Ele é saudável ou não?

·         Como ele se veste? Segue a moda ou não?

·         Tem tiques nervosos? Quais? Por quê?

·         Tem algum defeito físico? Qual? Por quê?

·         Tem alguma cicatriz? Onde? Por quê?

·         Como ele caminha? Há alguma peculiaridade no caminhar?

·         Como ele fala? Lento? Rápido? “Come” alguma letra?

As respostas a estas perguntas ajudarão a moldar o seu personagem, definindo assim suas características psicológicas e sociais, que é o assunto da nossa próxima postagem.

 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O PERSONAGEM DE FICÇÃO


PERSONAGEM

Tão difícil quanto criar diálogos consistentes, é criar personagens verossímeis. No entanto, criar bons personagens para conduzir sua história é parte fundamental no seu processo de escrita do roteiro. Boas histórias sempre têm personagens marcantes. É por meio dos personagens que você transmitirá a mensagem do seu roteiro. Você consegue imaginar algum filme de ficção sem ao menos um personagem? Eu já vi filmes em que insetos falam, computadores ganham emoções humanas, humanos se tornam seres bestiais, fantasmas se comunicam com os vivos, mortos voltam à vida e até mesmo já vi Deus e o diabo nas telas do cinema. No entanto, não me lembro de nenhuma história contada sem ter ao menos um personagem que a conduz. Personagem é essencial para o drama. Por isso, você precisa criar personagens no mínimo convincentes para conduzir suas histórias.
Para fazer um dos maiores filmes da história do cinema, Orson Wells criou um personagem enigmático, poderoso e fascinante e o chamou de Cidadão Kane, o magnata das comunicações. Você certamente se lembrará do personagem principal de Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society, 1989), não apenas porque foi interpretado por um ator do calibre de Robin Williams, mas porque o professor John Keating é uma figura marcante, com uma personalidade única e ações que fazem dessa história algo digno de ser lembrado.
Para construir um personagem marcante você precisa ir muito além do clássico nome, idade e profissão. É preciso pensar na psicologia do personagem, ir fundo em sua alma. Ir muito além do maniqueísmo do bem e do mal das peças teatrais estudantis. É preciso lembrar que um ser humano de verdade possui virtudes e defeitos, e que ninguém é totalmente bom, ou totalmente mau.
O filme Cidade de Deus (2002), de José Padilha, é um bom exemplo de personagens emblemáticos e bem construídos. Zé Pequeno (Leandro Firmino) é a maldade em pessoa. Mas, mesmo para um bandido do calibre de Zé Pequeno, há momentos no filme em que ele mostra que é um ser humano, como quando Buscapé (Alexandre Rodrigues) morre. Zé Pequeno realmente gostava de Buscapé e se importava com ele, mesmo sendo um ser humano cruel e sanguinário. Usando o mesmo filme como exemplo, encontramos um sujeito que parece ser “a bondade em pessoa”. É Mané Galinha (Seu Jorge), um sujeito simples e trabalhador, mas que, para vingar tudo que Zé Pequeno lhe infringiu (humilhação pública, estupro da namorada e morte do irmão), acaba se tornando também um bandido perigoso, capaz de matar sem a menor piedade. São as várias faces de um mesmo ser humano que, dependendo da situação, é capaz de tudo. Não nos esqueçamos que somos animais e, quando acuados, agimos por instinto.
Os psicopatas são a única exceção nesse tipo de construção de personalidade. Um psicopata não tem sentimentos, e como tal, é a maldade em pessoa. Ele não necessita de motivos para matar, roubar, manipular... Muitos psicopatas fazem isso por puro prazer. E se agem com bondade, é simplesmente pensando em seu próprio bem. Matar um ser humano simplesmente para construir um casaco de pele humana é algo que eles encaram com naturalidade (O Silêncio dos Inocentes). A série de TV Dexter é um ótimo laboratório para entender o complicado mundo particular de um psicopata.
No entanto, mesmo que o seu personagem seja um psicopata como o Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), por exemplo, ele terá que ter uma personalidade muito bem solidificada. Você terá que basear a sua personalidade em um passado justificável para que um homem como ele tenha as atitudes que ele toma no filme. E isso não é nem um pouco fácil. E é por aí que você começará a construir a personalidade do seu personagem: pelo seu passado, pois, como diria Victor Hugo, o homem é fruto do seu meio. Tudo o que o seu personagem fará, terá que estar embasado em sua personalidade. Se não for assim, ele perde credibilidade e, consequentemente, sua história também.
Expliquemos melhor esse conceito. Digamos que o seu personagem é um político honesto e que ele tem por princípio jamais aceitar propina ou favorecimento pessoal. Caso nos deparemos com uma cena em que o seu político honesto aceite receber um favor pessoal em troca de votação para aprovação de um projeto de lei polêmico, isso nos faria perder a credibilidade que havíamos depositado nele. Você até pode colocar o seu político honesto na situação acima descrita, mas teria que justificar muito bem a atitude dele. Por exemplo, no caso de ele estar sendo ameaçado, seu filho ou esposa estarem em condição de coação ou seqüestro etc. Ou outra situação que justifique ele estar indo contra os seus princípios, como é o caso do personagem Mané Galinha, do filme Cidade de Deus. Quando uma situação assim é bem escrita, gera até um conflito interessante.
No filme Tempo Esgotado (Nick of Time, 1995), um homem simples (Johnny Depp) é escolhido aleatoriamente para matar a governadora da Califórnia, Eleonor Grant (Marsha Mason), que tenta a reeleição. Caso a governadora não esteja morta dentro de uma hora e vinte e três minutos, eles matarão sua filha de seis anos de idade (Courtney Chase). Por mais pressionado que Gene Watson (Depp) esteja, ele não consegue realizar a ação, pois isso vai claramente contra seus princípios,  e ele arrisca perder a sua filha ao ter que se tornar um assassino. O que torna o filme interessante é a possibilidade de nos colocarmos no lugar de Watson, sendo obrigados a matar uma pessoa inocente para salvar a vida de outra inocente, a sua filha. Um personagem simplista, ou sem caráter, simplesmente executaria a ação sem questionar muito os “porquês”. Mas, complexa como é a personalidade humana, vários questionamentos são feitos ao longo das quase duas horas do filme.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

FORMATANDO O SEU ROTEIRO - VOZ OFF E VOZ OVER


Voz off e Voz over
Há duas formas de você indicar no seu diálogo que o autor da fala está ausente da cena. A primeira é a “voz off”, que geralmente vem entre parênteses ao lado do nome do personagem com a indicação (OFF). Esta indicação é usada quando sabemos quem é o personagem que fala, mas ele não aparece na cena. Pode ser uma narração ou uma cena cujo personagem está do lado de fora de um ambiente e ouvimos somente a sua voz.
A outra forma é a “voz over”, e da mesma maneira que a voz off, vem indicado entre parênteses ao lado do nome do personagem (V.O.). Esse tipo de indicação é usado quando, além de não vermos o personagem, não sabemos quem está falando. É mais comumente usado em narrações da chamada “voz de Deus”, que é um narrador onipresente e onisciente que acompanha toda a história, mas que não é um dos personagens ativos da trama.
Você pode encontrar outras variações para o uso da voz off e da voz over, assim como para outros termos técnicos comumente usados na escrita do roteiro. No entanto, tenha em mente que o objetivo desses termos é para simplificar e dar clareza às suas ideias ao contar a sua história. Desde que não haja contradição, você pode usar variantes dessa linguagem. 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

FORMATANDO SEU ROTEIRO - RUBRICA


Rubrica
Logo abaixo do nome do personagem, que deve estar todo em maiúsculo e centralizado na página, você tem a opção de fazer alguma indicação para o ator. É o que nós chamamos de “rubrica”. É uma descrição breve e clara de uma ação que ajude o ator a entender qual é a intenção daquele diálogo, e deve estar entre parênteses, a cerca de quatro centímetros da margem esquerda. Mas atenção, assim como outros recursos usados para contar sua história, não abuse das rubricas. Use-as apenas quando for extremamente necessário. Assim como você não deve dirigir o filme enquanto escreve o roteiro, deixe a parte criativa da interpretação a cargo dos atores. Se a ação ficar clara no diálogo, não há necessidade de reforçá-la na rubrica. Qualquer ator inteligente vai perceber isso. Veja um exemplo.
AMADEU
(Sarcástico)
Momentos felizes. Que momentos felizes, Elísia? Desde que casamos só temos tido decepção atrás de decepção.

FORMATANDO SEU ROTEIRO - DIÁLOGO


Diálogo
Podemos dizer que o diálogo é a parte mais importante do roteiro. É através dele que ficaremos sabendo o que pensa cada um dos personagens da nossa história. Em conseqüência, é também uma das partes mais difíceis que você encontrará ao escrever o seu roteiro. Para se ter uma ideia, na indústria cinematográfica norte-americana, principalmente na produção de séries, há profissionais especializados apenas em escrever diálogos.
Se você é um roteirista de primeira viagem, seus primeiros diálogos parecerão esdrúxulos nas suas primeiras tentativas de se expressar através de um personagem fictício. E não tem jeito, só a prática te fará escrever diálogos convincentes. No entanto, podemos ajudar com algumas dicas.
Primeiro, jamais escreva de forma empolada, formal demais, pois, mesmo que seu personagem seja um intelectual, ele com certeza não falará o tempo todo empregando uma verborragia intelectualizada. Isto, além de soar falso, é extremamente chato de se ouvir. É claro que para toda regra há exceções, e em se tratando de comédia, tudo é possível.
Segundo, a forma como o personagem fala reflete sua condição econômica e social. Um personagem semi-analfabeto, que mora na periferia de uma grande cidade, terá um linguajar característico totalmente diferente do de um jovem de classe média, bem educado, morador de um bairro de classe média alta, por exemplo.
O poder de convencimento de um diálogo vem da forma como você consegue imprimir personalidade e individualidade aos diálogos de cada um dos seus personagens.
Aqui, evite passar informações óbvias ou em duplicidade. Se você está mostrando algo, não há necessidade de expressar verbalmente a mesma coisa. Lembre-se que o filme é uma obra mais visual do que auditiva. Se não fosse assim, o cinema mudo não teria existido. Portanto, sempre que for possível, mostre ao invés de fazer o seu personagem falar. E faça com que ele fale somente o necessário. Não há nada mais chato em um roteiro do que um personagem que fala sem sentido, apenas para preencher espaço.

FORMATANDO SEU ROTEIRO - POV


POV
Existem ainda outros recursos que você pode usar para descrever as ações no seu roteiro. No entanto, mais uma vez, cabe aqui a advertência de só usá-los se isso for realmente necessário para o entendimento daquilo que você está querendo dizer. Um deles é o ponto de vista, também conhecido como câmera subjetiva.
Quando você quer descrever o ponto de vista de um personagem, ou seja, aquele momento em que a câmera assume o lugar do personagem para, efetivamente, entrar na história. Nesse tipo de ação, os outros personagens relacionam-se diretamente com a câmera, olhando diretamente para sua lente e tratando-a como um dos personagens da ação. Isso é importante, por exemplo, quando você quer descrever o ponto de vista de um personagem misterioso vindo para cima de um segundo personagem. No roteiro, você usa as letras POV[1] em maiúsculo, e em seguida, informa de quem é o ponto de vista.
POV de PEDRO olhando o movimento de carros e pedestres lá embaixo, na rua.


[1] Sigla em inglês para Point Of View, ou, ponto de vista.